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27 julho 2015

Em vídeo :: entrevista com Paula Velasco, diretora da Bodega Tinedo (Espanha)


Na última semana tive o prazer de entrevistar Paula Velasco, diretora comercial da Bodega Tinedo, vinícola espanhola da região de La Mancha. Na oportunidade falamos um pouco sobre a história da bodega, sua modernização a partir dos anos 2000, sobre seus vinhos e a opinião da diretora sobre a crise econômica brasileira. 

Saúde a todos!

27 fevereiro 2013

Em vídeo: os novos vinhos italianos e espanhóis importados pela Domno



No último dia 16 de fevereiro entrevistei o enólogo Márcio Mortari, gerente regional de vendas da Domno do Brasil, empresa do grupo Valduga que além de elaborar premiados espumantes também importa vinhos de vários países produtores.

Pra ser mais exato, desde o final de 2012, a Domno importa vinhos dos seis mais importantes países para o mercado brasileiro, que juntos representam cerca de 95% das importações para nosso país. Além dos já conhecidos vinhos de Argentina, Chile, Portugal e França, a empresa passa a trazer com exclusividade alguns rótulos da Itália e da Espanha

Os novos rótulos estão situados em faixas diferentes de preços e alguns deles contam com etiquetas de altas pontuações obtidas junto a críticos e publicações especializadas.

Segundo Márcio o catálogo da importadora agora está bem próximo do que foi planejado por eles, contando com vinhos dos principais países e de produtores selecionados, situados nas mais variadas faixas de preços, para atender aos consumidores de diferentes níveis de exigência em relação a valores.

Saiba um pouco mais dessa nova fase da Domno assistindo ao vídeo que produzimos. 

Saúde a todos!

25 fevereiro 2013

Em vídeo: Juciane Casagrande, diretora da Casa Valduga, conta as novidades para 2013 e faz um balanço do ano que passou



No último dia 16 de fevereiro encontrei com Juciane Casagrande, diretora comercial da Casa Valduga, no encerramento da convenção anual da empresa com seus representantes de todo o Brasil. Nesse ano o evento foi realizado no Hotel Dall'Onder (Grande Hotel), em Bento Gonçalves, onde foram apresentados os números de crescimento da vinícola e as metas para 2013. 

Em nossa conversa Juciane comenta o sucesso de duas medidas que a Valduga tomou no ano passado e que foram muito bem aceitas pelo mercado. 

O Arte Tradicional conta com um selo indicando ter passado 12 meses de maturação.

A primeira foi a inserção no rótulo de seus espumantes Champenoise de um selo com a indicação do tempo mínimo de maturação pelo qual o vinho passa, como acontece há muito tempo nos uísques. Desde então a linha Arte Tradicional (brut e demi-sèc) conta com um selo de 12 meses, a linha Reserva (brut e Blush) com o selo de 25 meses e a linha Gran Reserva (extra-brut e nature) com o selo de 60 meses. Essa identificação visual facilita muito a vida do consumidor.

A outra medida foi a divisão de suas linhas de acordo com o terroir de cada região produtora. Os vinhos tranquilos elaborados no Vale dos Vinhedos fazem parte da linha Leopoldina, numa homenagem à princesa que denomina inclusive o endereço da vinícola no Vale. 

Para os vinhos da Serra do Sudeste, onde a vinícola tem vinhedos em Encruzilhada do Sul, foi criada a linha Identidade, que já denominava os vinhos Marselan, Arinarnoa e Ancellota, mas agora ganha um corte (top da região), um Gewürztraminer e o lançamento do ano, um Pinot Noir safra 2012. 

Por fim, a região da Campanha Gaúcha também tem sua linha própria, chamada de Raízes, com um ótimo Sauvignon Blanc, as tintas Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, além do excelente Gran Raízes, um corte muito bem elaborado com as variedades Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Tannat.

O Gran Raízes Corte é um dos vinhos brasileiros que tem recebido boas avaliações em feiras e degustações às cegas

Assim, para a região tradicional do Vale dos Vinhedos ficaram os espumantes e os vinhos Chardonnay e Merlot, inclusive o ícone Storia, além das linhas mais básicas (Duetto, Arte e Naturelle). 

Saúde a todos!

22 fevereiro 2013

Em vídeo: entrevista com Flávio Pizzato


No dia 16 de fevereiro cheguei atrasado na visita que agendei com o Flávio Pizzato e minha desculpa foi: “estava com o André Larentis e, você sabe, enólogos gostam muito de falar, então me atrasei”.

A brincadeira – feita na presença do André que não pode me acusar de difamação – tinha um fundo de verdade, mas depois da visita à Pizzato ela não só foi confirmada, mas ampliada.

O Flávio, que eu já conhecia de outros eventos, é um sujeito falante, daqueles que contagiam todos à sua volta com informações técnicas, curiosidades e impressões pessoais sobre seus vinhos, sobre o mercado e parece ter uma opinião sobre tudo que envolve esse mundo. Pra quem é curioso como eu é uma oportunidade rara. 

Nesse clima de entusiasmo degustamos alguns de seus vinhos, cuja exportação para importantes mercados já representa 20% do faturamento da Pizzato. Esses mercados buscam, segundo Flávio, uma característica do vinho brasileiro que é seu frescor, mantido mesmo após alguns anos em garrafa.

Corte de Cabernet Sauvignon, Merlot e Tannat, elaborado com uvas da Pizzato em Dr. Fausto, município de Dois Lajeados.

Em razão do tempo que tínhamos, não degustamos os espumantes, uma certa "novidade" para a vinícola, que sempre se destacou por seus vinhos tranquilos. Mas provamos os seguintes rótulos: 

- Chardonnay, tradicionalmente sem madeira – mantém um ótimo frescor e a franqueza da fruta.

- Legno Chardonnay – com boa complexidade conferida pela madeira, usada com parcimônia, tem boa acidez e vocação gastronômica.

- Concentus 2007 – um vinho em franca evolução ainda, com bom potencial de guarda, onde predomina a Merlot, com cerca de 55% de participação no corte. 

- Verve de Pizzato - um corte vendido ao mesmo preço que o Concentus, mas com uvas de vinhedos localizados a 50 km da sede da vinícola (Dr. Fausto, em Dois Lajeados). No assemblage predomina a Cabernet Sauvignon. Nesse momento está mais pronto que o Concentus, mas com evolução por mais 1-2 anos sem preocupações.  

- DNA Merlot 2008 – o ícone da vinícola, ainda sem rótulo e que será lançado na Expovinis 2013. Ainda ainda está muito jovem, uma criança, com taninos marcantes e boa acidez. Ponto forte para sua complexidade aromática. Deve evoluir bem por muitos anos ainda.

No vídeo em alguns momentos há pessoas conversando ao fundo. É que a Pizzato tem um interessante programa de visitação para turistas e nesse dia algumas famílias estavam por lá, passeando pelos vinhedos, aprendendo sobre a elaboração de vinhos, pisando uvas e degustando os produtos.
Saúde a todos!

21 fevereiro 2013

Em vídeo minha última visita à Larentis, uma vinícola familiar em sua essência


Desde minha primeira visita à vinícola Larentis, em 2010, tenho feito citações a ela como sendo uma verdadeira “vinícola familiar”, onde gerações diferentes cuidam do vinhedo, da elaboração dos vinhos, divulgação e venda dos produtos.

Marquei uma entrevista com o jovem enólogo André Larentis para o dia 16 de fevereiro e tive a satisfação de conhecer seu pai, que estava chegando com um carregamento de uvas para vinificação. Ao cumprimentá-lo e dizer minha opinião sobre essa particularidade ele me disse: “o pai está no vinhedo”. Não pensei duas vezes e fui com eles para o campo, procurar o “Nonno” para uma foto. Lá estava ele, com uma caixa já lotada de uvas, sorriso no rosto e disposição de um jovem.

Três gerações da família Larentis: Cilo, Larri e André

Durante a entrevista provamos o Marsellan 2009, que continua sendo meu vinho preferido da vinícola. Além desse provamos novamente um dos melhores vinhos em bag in box do mercado, pronto para beber, macio e muito agradável, o que todo consumidor desses vinhos procura, porque costuma bebê-los no dia-a-dia, sem maiores preocupações com aromas, taninos etc. Vendido nas variedades Merlot e Cabernet Sauvignon é uma compra certa, na minha opinião.

Uva Marselan, quase pronta para ser colhida, com quase 13º de álcool natural

No vídeo produzido nesse dia o André fala um pouco da história da vinícola, da atual colheita e dos lançamentos programados para esse ano, um Malbec e um Tannat da safra 2012. Ao final dá sua opinião sobre o atual estágio de evolução do Mérito 2008, o tinto ícone da vinícola. 

Saúde a todos!

19 fevereiro 2013

Em vídeo: a safra 2013 e as novidades da Vinícola Aurora, com o enólogo André Peres Júnior


No último dia 15 de fevereiro estive na Vínícola Aurora, uma gigante do vinho brasileiro que teve sua grandeza confirmada pessoalmente porque fiz a visita durante o recebimento de uvas da safra 2013. Só pra se ter uma ideia, no dia anterior (14) a vinícola recebeu 2 milhões de quilos de uva, destinados a suas dezenas de rótulos, não só de vinhos finos, mas também de mesa, espumantes e outras bebidas à base de uva. 

Na cantina provamos algumas bases para espumantes feitas com Chardonnay, originárias de uma nova região agora explorada pela vinícola, Pinto Bandeira, mas também do Vale dos Vinhedos. Foi interessante perceber as diferenças desses vinhos, alguns com muita acidez e aromas de abacaxi, outros menos ácidos e predominância de aromas lembrando banana. 

Um espumante Pinot Noir, com uma leve colaboração da Riesling Itálico (20%). Vendido na loja virtual da vinicola a R$ 32,95

Depois fomos ao tanque do Tannat 2013, que irá para a linha Reserva da vinícola. Um vinho com acidez e taninos lá no alto, até difícil de beber nesse momento, mas que deverá resultar num vinho bastante interessante, que poderá ser guardado por alguns anos. 

Mas, o intuito da visita era entrevistar o enólogo André Peres Júnior, que já conhecia de outras visitas por lá e de quem eu queria obter informações sobre o andamento da safra e dos lançamentos da Aurora. 

Para André esse é um Pinot Noir que pode ser guardado por alguns anos. É vendido no site da Aurora por R$ 32,70

Confiram no vídeo essas informações sobre a colheita e também de dois produtos recém lançados pela cooperativa: um espumante brut rosé e um Pinot Noir elaborado com uvas de Pinto Bandeira. 

Saúde a todos!

11 agosto 2012

Entrevistamos o crítico Rui Falcão, que falou sobre a campanha da ViniPortugal e Essência do Vinho


A ViniPortugal, através da Essência do Vinho, realiza uma campanha de promoção dos vinhos portugueses em 12 cidades brasileiras. Iniciada em julho a ação irá até o mês de setembro, em 30 eventos de formação dirigidas a profissionais da área, imprensa especializada e formadores de opinião. Basicamente as ações se dividem em cursos com duração de 6 horas e jantares harmonizados. 

No último dia 9 de agosto estivemos em Ribeirão Preto para participarmos de um jantar harmonizado, realizado no restaurante Flor de Sal, comandado pelo chef Tiago Caparroz.

Antes do evento tivemos o prazer de conversar com crítico e jornalista de vinhos Rui Falcão, que nos falou sobre a campanha em prol do vinho português. Logo em seguida ele proferiu uma breve palestra sobre as regiões que seriam representadas naquela noite, já que provaríamos alguns importantes rótulos brancos e tintos. 

O primeiro vinho provado foi um ótimo representante dos Vinhos Verdes, o Alvarinho Deu La Deu, elaborado na sub-região de Monção e Melgaço. O segundo vinho foi também um branco da região do Douro, o Alves de Sousa Branco da Gaivosa 2010, capaz de salivar a boca apenas com seus aromas. Enfim, dois ótimos aperitivos para o que viria a seguir. 

A entrada servida foi um Pirarucu Defumado, acompanhado de compota de cebola e mousseline de batata. A  harmonização ficou perfeita com um vinho branco da região do Dão, o Quinta dos Roques Encruzado 2008. Esse foi o vinho que mais me impressionou dentre todos da noite, embora tenhamos bebido excelentes tintos. Mas a complexidade aromática, a acidez extraordinária e a capacidade de envelhecimento fazem dele um vinho a ser conhecido.

O prato principal foi uma Porquetta (leitoa de leite, desossada e recheada), acompanhada de risotto de aspargos e cogumelos. Para harmonizar com esse prato foram escolhidos três ótimos tintos, de regiões diferentes e características também muito distintas.

O primeiro tinto foi o CH by Chocapalha 2009, elaborado com 100% Touriga Nacional, na região de Lisboa, um vinho bem aromático, capaz de demonstrar toda a intensidade dessa uva emblemática de Portugal.

O segundo foi o Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas 2009. Esse foi o vinho que deixei por último na taça, para bebê-lo lentamente. É elaborado com uvas provenientes de vinhas com muitas dezenas de anos e variedades desconhecidas pela própria vinícola. Aliás, o Rui Falcão fez questão de realçar essa prática portuguesa de elaborar vinhos. Caso alguém resolva perguntar ao enólogo quais as variedades utilizadas, certamente a resposta seria: "não sabemos. Nem nos interessa saber". Um vinho intenso e de extrema elegância. 

O terceiro, o Quinta das Bageiras Garrafeira Baga 2004 é um ótimo exemplo das melhores características dessa uva, maior representante da região da Bairrada, que dá vinhos com  muita acidez e taninos poderosos, que demoram muitos anos para se tornarem macios. Portanto, grande capacidade para acompanhar as refeições e grande potencial de guarda. Foi o que comportou-se melhor com a Porquetta.

A sobremesa encerrou muito bem a noite, mantendo o alto nível dos pratos servidos. Foi servido um Cheesecake com compota de goiaba, harmonizado com o Alambre Moscatel de Setúbal 2007, elaborado pela José Maria da Fonseca.

Nossas impressões sobre o evento foram ótimas. Apesar da correria de percorrer os quase 300 km de distância entre Uberlândia e Ribeirão Preto, valeu cada minuto passado na companhia de ótimos vinhos e de excelentes figuras humanas. Rui Falcão e o diretor da Essência do Vinho, Nuno Pires, foram muito gentis e sentaram-se à nossa mesa, proporcionando momentos descontraídos em torno de uma paixão única.

A próxima parada desses "embaixadores do vinho português" será em Campinas, nos dias 13 e 14 de agosto. 

Saúde a todos!

28 maio 2011

Dez perguntas para... Marcelo Copello

Ele é um dos mais respeitados críticos do vinho no Brasil. Foi eleito como o “melhor jornalista” pela revista Meininger’s Wine Business International em 2009 numa matéria destinada a indicar “quem é quem” no cenário brasileiro do vinho.

É fundador e ex-Editor Chefe da Revista Adega e escreve atualmente para as revistas Gosto e Revista de Vinhos (Portugal), sendo o primeiro brasileiro a ter uma coluna de vinhos em veículo europeu. É autor de quatro livros de sucesso, sendo que Vinho & Algo Mais foi indicado para concorrer ao importante Prêmio Jabuti. Tem sua própria escola (Mar de Vinho) no Rio de Janeiro.

Mas seu principal diferencial, penso eu, está na isenção. Conforme deixa claro em sua página na internet, nunca teve seu nome associado a nenhuma marca ou produto, não mantendo nenhum tipo de relação comercial com importadoras, vinícolas, lojas ou quaisquer empresas que comercializam vinhos.

Quando tive os primeiros contatos com as colunas e críticas de Marcelo Copello, me chamou atenção a maneira com que avaliava vinhos brasileiros sem nenhuma nota preconceituosa, mas sem o ufanismo que pode prejudicar a crítica.

Aceitou prontamente responder às dez perguntas a seguir:

VPT - Na sua atividade cotidiana, como manter a independência de crítico sem se indispor com alguém?

No início de minha carreira, nos anos 90, aconteceu de eu ser hostilizado por avaliar mal um vinho, mas isso foi raro e logo conquistei o respeito de todos, através de um trabalho sério e consistente. Hoje, pelo contrário, os produtores querem saber se acho que o vinho pode ser melhorado e sabem que vale a pena amargar algumas avaliações ruins e esperar uma boa, pois mais vale uma avaliação boa com a credibilidade de um profissional sério, do que mil avaliações boas de quem elogia tudo sempre.


VPT - Recentemente o Brasil recebeu o crítico Oz Clarke e dele ouvimos coisas boas e outras nem tanto a respeito de nossos vinhos. Com quais observações feitas por ele você concorda? Com quais discorda?


Confesso que não vi o vídeo todos e não poderia comentar.


VPT - Nos últimos anos o mundo do vinho foi invadido pelos blogs e pelas redes sociais, bombardeando o consumidor com muita informação. Quais os aspectos positivos e negativos desse fenômeno?


O lado negativo é que circula muita informação errada na rede e excesso de informação acaba nivelando tudo por baixo, para um leitor desavisado um blog anônimo ou falso, ou de alguém que começou no vinho ontem pode ter o mesmo peso do blog do New York Times. O lado positivo é que os blogs são grandes difusores da cultura do vinho, levando esta cultura a um nível de capilaridade que seria inalcançável pela mídia convencional.


VPT – O vinho importado no Brasil é um produto caro se compararmos com os preços na origem. Isso é fruto apenas da alta tributação ou os importadores tem sua parcela de culpa nesse processo?


Todo vinho é caro no Brasil, importado e nacional, fruto do que chamamos de “custo Brasil”, um mix de impostos, margens e custos em geral. Alguns importadores colocam margem alta sim, mas outros colocam uma margem necessária para bancar este custo Brasil, que é alto. O maior vilão o governo mesmo.


VPT - O mercado brasileiro hoje é respeitado internacionalmente em virtude do potencial de seus consumidores. E o vinho brasileiro? O que se fala dele no exterior?


O vinho brasileiro no exterior é uma novidade bem vinda. Primeiro pois a expectativa em relação ao nosso vinho é inexistente e quando se prova a surpresa por vezes é boa. Depois o Brasil como nação tem uma imagem muito positiva, o que ajuda bastante.


VPT - É possível comparar o vinho brasileiro com algum outro? Temos uma identidade própria?


Estamos ainda em fase de construção desta identidade, mas já podemos falar dos espumantes brasileiros, que são uma realidade, com seu estilo próprio.


VPT - O espumante brasileiro é realmente o “segundo melhor” do mundo?


Temos no Brasil uma mania de “melhor do mundo”, vinda de nossa cultura do futebol, do esporte, e vinho está mais para arte do que para esporte. Fazemos os melhores espumantes da América Latina, e isso já é para termos muito orgulho.


VPT - Com que freqüência bebe vinhos?


Em horas, minutos ou segundos?


VPT - Costuma levar seu próprio vinho a restaurantes? Qual sua opinião sobre a cobrança da rolha?


Sim, costumo levar e faço questão de pagar rolha ou dar boas gorjetas, pois acho fundamental que quem me serviu seja remunerado por isso.


VPT - Já temos o livro “1001 vinhos para beber antes de morrer”. Se você tivesse que mudar o título para “1 vinho”, qual seria?


Esta é uma pergunta recorrente, que sempre me fazem, e que já respondi de muitas maneiras diferentes. Recentemente em uma degustação vertical de Veja Sicilia Unico que eu apresentava, um dos participantes me fez esta pergunta e eu disse que seria um Champagne, talvez Krug ou um Salon, de alguma safra antiga. Ele ficou meio decepcionado, disse que esperava um tinto, e perguntou porque Champagne. Eu disse que era o que me dava mais prazer.

No fundo acho que não existe o “melhor vinho”, existe a “melhor companhia”, pois o melhor vinho é o que mais emociona e quanto mais vinhos provo vejo que a emoção vem não apenas do vinho, mas do contexto, da ocasião e principalmente do convívio que ele proporciona.

Valeu, Marcelo!

27 fevereiro 2011

Dez perguntas para... Daniel Dalla Valle


No último fim de semana estive em Bento Gonçalves para participar de algumas atividades, conhecer vinícolas que ainda não havia visitado e principalmente ver como é o Vale dos Vinhedos na época da vindima, o que eu ainda não tinha feito.

No domingo tive o prazer de encontrar e entrevistar o enólogo Daniel Dalla Valle, no hotel Dall'Onder Vitória, onde ele participava das convenções anuais das empresas da Famiglia Valduga (Casa Valduga, Casa de Madeira e Domno).

Aceitou de pronto responder às perguntas, que acabaram sendo mais do que dez, contrariando o título dessa seção do blog, mas uma pergunta levou a outra e por aí fomos. Um papo agradável e sincero que vocês acompanham a seguir:

VPT - Daniel, gostaria que fizesse um resumo sobre sua trajetória profissional.

Sou bentogonçalvense, nascido no interior de Bento Gonçalves, filho de viticultores, com a vida sempre relacionada à uva e vinho. Em 1991 (por sinal considerada a melhor safra até anos atrás), então com 15 anos de idade, fui fazer a Escola de Enologia aqui na cidade mesmo. Em 1994 comecei a fazer estágio na Casa Valduga e permaneço lá desde então, há 17 anos. Em 1995 comecei o curso superior de Enologia também aqui na cidade e em 1998 fui fazer estágio de aperfeiçoamento na França. Todos os anos vou a um país ou outro fazer algum aperfeiçoamento, como Portugal, na parte de vinificação, rolhas, insumos etc. Atualmente sou enólogo e Diretor Técnico do Grupo Famiglia Valduga, vice-Presidente da Associação Brasileira de Enologia e Diretor Técnico da APROVALE – Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos.

VPT - Quais as grandes dificuldades de ser enólogo no Brasil?

Por ser um país jovem ainda, o clima dificulta bastante, mas apesar de ser difícil é desafiador e é gostoso porque tem muita coisa a ser desbravada. Não dá pra dizer que sejam só dificuldades para o enólogo no Brasil.

VPT - A atividade de enólogo de uma grande vinícola (ou de duas), como é seu caso, se estende por todo ano, não somente na época de produção. Pode falar sobre isso?

Na colheita e vinificação as atividades se intensificam em função da dinâmica de tudo isso. Quando existe o ponto de maturação você não pode deixar a uva por mais uma semana porque a vinícola não tem capacidade produtiva. Então tem que estar tudo muito bem planejado, com a vinícola organizada. Então existem semanas em que a atividade é bem intensa e como a vinícola tem um certo tamanho, então durante o ano as atividades continuam, um pouco mais pautadas, mas continuam com os cortes, assemblages. Em nosso caso, que elaboramos muitos espumantes temos sempre a tiragem a ser feita, o degorgement, a colocação de vinhos em barricas, retirada, engarrafamentos, todo o controle de qualidade do engarrafamento tem que ser acompanhado pelo enólogo. Além disso temos que viajar para outras partes do mundo para conhecer novas regiões, ir para feiras, tanto de tecnologia como para consumidores de vinho para conhecer as tendências. Então não há momentos que não tenhamos atividades.

VPT - Ontem ouvi você falando sobre isso, mas gostaria de retomar o assunto. Muitos defendem que o Brasil não precisaria de uma uva emblemática. Em termos de marketing talvez seja importante, como a tannat para o Uruguai ou a malbec para Argentina. Efetivamente, na visão do enólogo, a merlot é a melhor uva tinta brasileira?

Para o momento sim. É a que melhor vem se destacando não só na Serra Gaúcha, Vale dos Vinhedos, mas também como temos comprovado em outros microclimas. Mas isso se deve, talvez, por ela estar inserida no Brasil há mais de 20 ou 30 anos. E como eu havia falado, o Brasil ainda precisa de muito teste, muita prova, existem muitos microclimas e não há nada definido ainda. Então num primeiro entendo que a merlot é interessante porque o próprio consumidor está esperando um malbec, um carmenère, essas variedades que os países tem buscado. Inclusive em Portugal agora se diz que a touriga é a uva portuguesa, eles que tanto trabalharam com assemblages estão buscando um varietal. Então no momento com certeza a merlot é ideal.

VPT - Essa semana o Vale recebeu o crítico Oz Clarke, jornalista britânico. Numa entrevista ele fez algumas observações sobre os vinhos brasileiros. A primeira delas é que o moscatel brasileiro está melhor que os Asti italianos. A que você atribui isso: variedades diferentes, o gosto do consumidor brasileiro ou método de elaboração?

As variedades se assemelham muito às italianas, porque a maioria delas foram trazidas da região do Asti, no Piemonte. Talvez o que explique isso é a vantagem de nosso clima produzir produtos mais joviais, frescos, alegres, descontraídos, que vem de encontro à tendência mundial de exigir produtos mais ácidos, frescos, não tão maduros. Tudo isso combinou perfeitamente com nossos espumantes. A crítica é bem construtiva e reflete o que hoje acontece.

VPT - O mesmo crítico defendeu, talvez a título de sugestão, que o Brasil precisa produzir vinhos mais alegres, com mais fruta e menos madeira. Como você encara essa proposta?

É uma boa sugestão. E temos conseguido fazer esse tipo de produto mais facilmente. Com a abertura do mercado, com grande entrada de vinhos importados, há possibilidade para o consumidor provar novos vinhos e propiciar que as vinícolas brasileiras também elaborem vinhos com esse estilo. É uma colocação bem pertinente.

VPT - Não tenho dados, mas é provável que o consumidor brasileiro tenha preferência, nos vinhos brancos, pela variedade chardonnay. Talvez seja como a cabernet sauvignon, que o consumidor por vezes compra sem saber o que é. Mas em sua opinião como enólogo, a chardonnay é a variedade para produção dos melhores brancos brasileiros?

É uma variedade que tem se adaptado de maneira fantástica, desde a Serra Gaúcha até a Campanha. Ela tem uma adaptação excepcional aqui no Rio Grande do Sul. Existem outras variedades que podem fazer frente ao chardonnay, por exemplo, o sauvignon blanc, para os mais persistentes o Gewürztraminer (que não é uma variedade fácil de manejar no campo, mas o consumidor gosta muito). Em termos agronômicos e enológicos o chardonnay está indo muito bem e o consumidor tem um grande apelo em relação ao chardonnay, como existe com o cabernet sauvignon.

VPT - Aproveitando que falamos sobre o Gewürztraminer. Eu bebo esse vinho da Casa Valduga desde a safra 2004, quando ainda existia a linha Seculum. Foi o primeiro vinho aromático brasileiro que me impressionou. Mas algumas safras depois (talvez 2007/2008) ele mais tímido em termos aromáticos. A que se deve isso: safra, método de elaboração ou foi apenas uma impressão minha?

Nossos vinhedos eram daqui na Serra Gaúcha, onde o Gewürztraminer é extremamente difícil de ser elaborado, difícil mesmo. Para você conseguir um vinho com 12,5 ou 13 de álcool potencial, com uma flor bem marcante, não é fácil. Nesse período nós estávamos deixando os vinhedos da Serra para implementarmos os vinhedos em Encruzilhada do Sul. O Premium 2010 já é um vinho elaborado com uvas da Serra do Sudeste.

VPT - Na Domno você elabora espumantes apenas pelo método Charmat. São espumantes com grande frescor mas com boa complexidade apesar do método. O que faz com que esses espumantes não sejam só frescor, mas tenham alguma estrutura e complexidade?

Tudo parte da uva. Penso que ela é a grande “sacada” do enólogo, que tem que ter conhecimento enológico, mas uma boa vivência de uva, de matéria prima, que precisa ser boa para lhe dar suporte na vinícola. O que dá mais complexidade ao produto é a uva, e o método de elaboração, onde tentamos preservar aos máximo as características, utilizar menos tecnologias que possam agredir a cremosidade e a complexidade. Esse fator é importante, além do tempo de maturação nos tanques. O nosso é o método Charmat, mas não é tão ligeiro. Por exemplo, o Extra Brut fica um ano em permanência com as leveduras. Muitos provam e dizem que “está parecendo um Champenoise”. O .Nero tradicional fica seis meses em contato com as leveduras. Além das variedades que utilizamos (Chardonnay e Pinot Noir) que aportam essa característica de fineza, untuosidade, corpo, elegância. Tudo isso importa.

VPT - Particularmente gosto muito da linha Identidade e tenho bebido o Marselan 2006 que está num ótimo momento. Mas me parece que é uma linha pouco compreendida. O que o consumidor deve esperar quando leva pra casa um vinho Identidade?

Como o próprio nome diz, eles tem identidade própria, são marcantes. Acredito que por serem variedades novas (Marselan, Arinarnoa e Ancelotta), porque o consumidor brasileiro ainda quer muito Cabernet Sauvignon. Mas acredito que aos poucos ele começa a entender, sendo que os mais críticos, as pessoas mais aprofundadas no mundo do vinho tem adquirido esse produto, tem gostado e repetido a compra. Nós estamos apostando neles e na Serra do Sudeste temos outras variedades em experimento, mas essas três foram as primeiras. Quando existe o pioneirismo você precisa implantar muitas variedades e saber que nem todas poderão ser utilizadas numa linha, porque muitas não se adaptaram ao clima. Já erradicamos vários hectares naquela região porque a uva não se adaptou e não é possível levar para o mercado um produto que tenha muita diferença entre safras, uma safra é boa, a outra é média, e não podemos ter esse tipo de problema. As safras precisam ser regulares.

VPT - Você falou ontem na palestra que estão pesquisando novos terroirs aqui no Estado. Você pode falar algo a respeito ou é segredo ainda?

Já faz oito ou dez anos que estamos fazendo pequenas vinificações de várias regiões. Já está muito claro pra nós a região, mas não estamos divulgando. Inclusive nós nem compramos e há um tempo atrás as pessoas começaram a falar que a Valduga tinha adquirido terras, mas isso não se confirma, pois temos somente em Encruzilhada do Sul. Mas as provas que fizemos começam desde a parte de Maçambará e Itaqui, nessa região mais a oeste e vai até Quarai, Santana do Livramento, Bagé, Dom Pedrito e vai descendo. Temos uma vasta região de experimentos.

VPT - No ano que vem a Valduga terá um varietal Pinot Noir. Qual a característica esperada para esse vinho? Que perfil você traça para esse varietal?

Esse vinhedo foi implementado há vários anos, numa concepção para se ter um Pinot Noir de média guarda (é o que esperamos), com densidade alta, com pouca produção por planta. Vamos tentar fazer um vinho que não tenha um estilo tão borgonha, que tenha um estilo jovem, mas que seja elegante, fino, delicado, pois é o que se espera dessa variedade. Não um vinho tão encorpado, porque o Pinot Noir é um vinho leve, mas com taninos elegantes, é o que estamos esperando dele.

VPT - Ontem você falou em 1 kg ou 1,5 kg por planta...

Isso. É a nossa produção nesse vinhedo. Temos 5.500 plantas por hectare, que resultarão em 7 toneladas. O objetivo é fazer 6.000 garrafas por hectare.

VPT - Hoje é dia 20 de fevereiro. Como está a safra 2011 até hoje. O que já foi colhido e o que ainda será? Qual a expectativa para a conclusão dessa safra?

Até o momento está muito boa em relação a 2010. Até o momento foram colhidas as bases de espumante Chardonnay e Pinot Noir e uma parte de Riesling Itálico para a Domno. Desses anos que atuo como enólogo – para bases de espumante – acredito ser o melhor ano. Está se mostrando o melhor ano, mas temos que acompanhar a maturação dos vinhos brancos para as bases, que estão com um equilíbrio fantástico, perfeito. Nesse momento terminamos a colheita do Prosecco e vamos começar com a colheita dos aromáticos, Moscatos, Moscato Giallo, Malvasia. Para os tintos ainda está um pouco cedo, pois vamos começar a colher em meados de março, início de abril. Mas até o momento o clima está muito bom. Tivemos algumas chuvas esparsas em janeiro, com dias nublados, mas nada que tenha prejudicado a vindima.

VPT - Em casa você bebe os vinhos de seus colegas brasileiros?

Eu bebo de tudo. Se você chegar na minha casa vai dizer: “como é que você tem esse vinho”? Eu bebo todos os vinhos, porque é função do enólogo provar, experimentar. O enólogo tem que ser o pai da criança, do vinho que elabora, mas tem que estar atento ao mercado. Não pode consumir somente o vinho que ele elabora e tem que prestar atenção no consumidor, no vendedor, no representante e todos esses fatores são importantes. Não vou te dizer uma marca, um produto, porque eu bebo vários vinhos nacionais de todas as vinícolas. Eu bebo como prova, como estudo, pra ver o que a vinícola está fazendo. Ouço o comentário positivo do consumidor e tento buscar o vinho para ver que característica ele gostou, se tem co-relação do comentário com o produto, porque muitas vezes não tem.


15 março 2010

Dez perguntas para... Adolfo Lona

O enólogo em sua produtora. Na taça (provavelmente) seu brut rosé, elaborado pelo método charmat, a partir das variedades pinot noir e chardonnay.
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Essa é a terceira entrevista que publico no blog. O convidado, que gentilmente aceitou responder as perguntas que enviei, é argentino de nascimento, mas já fala com um certo sotaque gaúcho! Desde 1973 no Brasil, Adolfo Alberto Lona trabalhou na Bacardi-Martini e desde 2004 tem sua própria produtora de vinhos e espumantes, na cidade de Garibaldi (visite). É autor do livro "Vinhos e espumantes: degustação, elaboração e serviço".
Estive com ele em outubro de 2008 e foi uma visita muito agradável. Ele presenteou a mim e minha esposa com uma das últimas três garrafas de seu espumante 30 meses. Atualmente também está ligado ao projeto da jovem Vinícola Peruzzo, sediada em Bagé, na Campanha Gaúcha. Quem for a Garibaldi não pode deixar de visitar a produtora e, se der um pouquinho de sorte, encontrar com Adolfo Lona por lá. Certamente será uma aula.
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VPT - Você está no Brasil há mais de 35 anos. Qual a grande mudança que vivenciou na vitivinicultura nacional?
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Foram 37 anos de maravilhosas experiências vivenciando as mudanças, avanços e retrocessos da vitivinicultura no Brasil.
Mudança no perfil das empresas produtoras: a década de setenta foi pródiga em mudanças por conta da chegada das empresas internacionais como Chandon, Maison Forestier, Martini e Rossi e Heublein que aportaram recursos para importação de mudas certificadas de variedades importantes como Merlot, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Chardonnay, Semillón que rapidamente foram adaptadas nas propriedades dos produtores rurais. Aportaram novidades fundamentais como as caixas plásticas de 18 quilos para colher e transportar as uvas, que pode parecer pouco importante, mas foram fundamentais para a melhora da sanidade das uvas; introdução das prensas pneumáticas que permitiram aperfeiçoar a fase de extração do suco na elaboração de vinhos brancos; introdução de sistemas automáticos de controle de temperatura de fermentação que além de liberar o enólogo para tarefas mais importantes, aportou precisão ao controle; substituição das pipas de madeira de pinho por tanques de aço inoxidável e finalmente a importação de barricas de carvalho para elaborar vinhos tintos de qualidade.
A etapa das empresas internacionais, que acabou definitivamente com a saída da Martini em 2005, foi um marco divisor.
Já em fins dos anos noventa o surgimento das cantinas familiares como Valduga, Miolo, Pizzato, Carraro e outras trouxe a força do eno-turismo (tábua de salvação para muitas delas ante a concorrência dos vinhos do Mercosul), o charme da produção familiar, artesanal, integrada, através dos quais se aportou valor ao vinho nacional.
Novas regiões produtoras: com a impossibilidade de aumentar as áreas da Serra, na grande maioria nas mãos de pequenos produtores, algumas vinícolas iniciaram empreendimentos fora dela. Por tal iniciativa surgiram regiões muito boas como Bagé, Candiota, Encruzilhada do Sul, Livramento, Pinheiro Machado e Dom Pedrito nas quais é possível implantar vinhedos de áreas relativamente grandes e onde o clima chuvoso faz menos danos devido à geografia menos acidentada e aos constantes ventos. Os vinhos destas regiões enriquecem a oferta de produtos nacionais.
Viticultura: infelizmente o Brasil ainda tem muito a trabalhar neste quesito, em especial na Serra, onde os excessos de produção impedem obter matéria prima superior. O sistema de remuneração das uvas não estimula o produtos que apela para a produção para evitar maiores prejuízos. Nas novas regiões onde os empreendimentos são feitos por empresas, o controle de produção já é uma realidade.
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VPT - Sua história está muito ligada à produção de espumantes na Serra Gaúcha. Que fatores o produtor leva em consideração quando opta por elaborar os espumantes pelo método tradicional ou pelo método charmat?.
O método tradicional permite obter espumantes a níveis qualitativos comparáveis aos melhores do mundo desde que sejam respeitados os tempos mínimos do ciclo de produção, nunca inferiores a doze meses. Os nossos têm ciclo de dezoito meses. Isto é caro e por isso os preços superiores e os volumes menores. Já o método charmat permite elaborar espumantes mais frescos e ligeiros, ideais para o dia-a-dia, com preço mais competitivo e uma resposta mais rápida em volumes. O produtor deve decidir antes em que mercado quer atuar, os investimentos que está disposto a fazer e as condições técnicas que tem para produzir espumantes da maior qualidade possível. Um fator importante é o tipo de investimento que cada método exige: o charmat exige investimentos altos em equipamentos e o tradicional exige um investimento menor em recursos, mas maior em tempo de retorno.
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VPT - O tinto que elabora em sua vinícola é um corte de merlot e cabernet sauvignon, ainda da safra 2004. Você desistiu de elaborar vinhos tintos?.
Por enquanto sim. Decidimos centralizar nossos esforços na produção e comercialização de espumantes por duas questões: melhores uvas na região e melhores perspectivas comerciais. O mercado cresce constantemente e o que é mais importante com bom valor agregado.
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VPT - Os monovarietais dominam o mercado brasileiro de vinhos tranquilos, tanto na produção nacional quanto na escolha dos importados. O brasileiro é preconceituoso em relação aos cortes?
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É um equívoco pensar que os vinhos varietais são todos monovarietais. A lei exige pelo menos 75% da variedade declarada e por tal razão muitos destes vinhos são cortes onde predomina a variedade declarada, mas é complementada por outra. Todos os enólogos sabem o belo casamento de Cabernet Sauvignon com uma parcela menor do Merlot. Apesar disto já há no mercado vinhos bi-varietais, mas penso que o consumidor ainda prefere os que citam somente uma variedade. Creio que é próprio dos mercados mais novos, onde o consumidor tem ainda muitas dúvidas e insegurança ao adquirir seus vinhos.
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VPT - Fale-nos um pouco mais do projeto da Vinícola Peruzzo. .
A família Peruzzo, que realiza empreendimentos nas áreas de supermercados e combustíveis em Bagé, ao sul do estado do RS, decidiu em 2005 iniciar um projeto de vinhedos e cantina integrado. Fui contratado como consultor e tive o prazer de realizar um projeto completo no qual estava previsto construir uma pequena cantina de 100.000 litros com todos os recursos necessários para elaborar vinhos e espumantes de alta qualidade. A região permite obter uvas excelentes. Para ter uma ideia as uvas atingem de forma natural teores alcoólicos superiores a 12% e em anos secos superiores a 13%. Todo o projeto está sendo seguido conforme planejado, acompanhado e dirigido por Éder Peruzzo, engenheiro agrônomo que será num futuro próximo um excelente enólogo. Trabalhar com a família Peruzzo tem sido um privilágio pela dedicação e apoio que prestam ao projeto. É um projeto integrado, planejado nos mínimos detalhes para produzir uvas e vinhos de qualidade seguindo conforme alguns princípios como: produzir 2 quilos por pé; somente elaborar uvas dos próprios vinhedos; praticar a poda verde, o raleio e o desfolhe para atingir a total maturação fenólica das uvas tintas; selecionar manualmente os cachos antes de processá-los; elaborar os vinhos ao ritmo da maturação das uvas e da capacidade operacional ideal da cantina; elaborar espumantes pelo método tradicional em caves subterrâneas com temperatura inferior a 19ºC; respeitar os tempos: cada uva, cada vinho, cada tipo exigem tempos que devem ser respeitados na procura da qualidade superior. Neste momento estão comercializando três vinhos: Chardonnay, Cabernet Sauvignon e Cabernet Sauvignon-Merlot e três espumantes elaborados pelo método tradicional: extra-brut (pas dose), brut e demi-sec (com 22 gramas de açúcar por litro, ou seja, moderadamente doce).
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VPT - O que o terroir da Campanha Gaúcha tem a oferecer?
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A Campanha, e em especial Bagé, oferece diversas condições que favorecem obter uvas maduras e sadias: solos areno-argilosos equilibrados, não muito ricos nem ácidos, que exigem moderado uso de calcário e nutrientes. A textura os torna suficientemente permeáveis para eliminar com rapidez os excessos de chuva evitando a erosão e lavagem; clima com um nível de chuvas quase idêntico à Serra, porém com um ciclo diferente, com menores quantidades na época final da maturação; geografia com moderados desníveis, ondulada, que facilita a mecanização total das tarefas culturais, permite a drenagem da água sem erosão e ventos leves e constantes que eliminam com maior rapidez a umidade. Com isso a uva sofre menos ataques de fungos, aumenta a sanidade e diminui o número de tratamentos; excelente amplitude térmica (em torno de 10ºC) com dias quentes e noites frescas, que facilita a formação de componentes da cor, fundamentais para as uvas tintas.
Essas condições contribuem para que a região da Campanha tenha melhores condições para produzir uvas tintas com alto teor de açúcares devido à boa maturação, boa carga de componentes da cor e excelente estado sanitário. Na colheita das uvas brancas destinadas a espumantes deve-se observar o equilíbrio entre açúcares e acidez porque os vinhos para espumantes devem ter moderado teor de álcool e boa acidez.
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VPT - Comete-se muitos erros no serviço do espumante. O que não se pode fazer? E o que é imprescindível para valorizar ao máximo o produto que é servido?
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No serviço de espumantes é importante sempre lembrar que o principal componente, o que o diferencia dos outros, é o gás carbônico. Os produtores fazem os maiores esforços para que seus produtos tenham uma boa quantidade de gás controlando temperaturas, maturando por longos períodos e redobrando os cuidados no remuage, degourgement, adição de licor de expedição e fechamento. Isto não deve ser jogado fora no momento do serviço. As etapas corretas no serviço do espumante são:
Esfriar em bande com gelo: num balde com muito gelo e algo de água, esfriar a garrafa durante pelo menos 45 minutos. Desta forma esfriaremos o líquido e não a rolha, que manterá sua elasticidade.
Retirar da cápsula e gaiola: para evitar a saída prematura da rolha retire a parte superior da cápsula para liberar a área de trabalho e afrouxe a gaiola, segurando com firmeza. Ao iniciar a retirada da rolha a gaiola deve vir junto.
Não despressurizar intempestivamente: o equilíbrio do gás carbônico dissolvido no vinho (que é o que vale) está dado pela pressão exercida sobre o líquido. Ou seja, numa garrafa fechada a pressão na câmara vazia (espaço entre a base da rolha e o nível superior do líquido) é idêntica a pressão do gás dissolvido. Por esta razão deve-se evitar "estourar a rolha". O correto é segurar a rolha de modo a sair de forma lenta. O som deve ser semelhante a um "respiro".
Servindo a taça: a taça, que deve ter o formato tulipa porque permite visualizar melhor o perlage, o tamanho da borbulha e a persistência da espuma, deve estar a temperatura ambiente. Não pode ser esfriada porque ficará embaçada impedindo o exame visual. Para evitar o choque de temperatura sirva uma pequena quantidade inclinando ligeiramente a taça e aguarde alguns segundos, após os quais se completa até aproximadamente 75% do volume. Desta forma teremos assegurado a presença total do gás na taça que ressaltará o movimento dado pelo perlage e transportará os aromas até a boca. É bom lembrar que a taça, contrariamente ao que se faz no vinho, não deve ser agitada para estimular o desprendimento dos aromas. O gás se encarrega disso.
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VPT - É possível iniciar e finalizar um jantar/almoço apenas com espumantes? Pode nos dar alguma dica valiosa?
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Não somente é possível como recomendado, desde que haja uma preparação da melhor harmonização. Para abrir um jantar ou almoço basta escolher um espumante seco, dos tipos nature (zero de açúcares), extra-brut ou brut e servir na temperatura correta (4-6º C). Ele cumprirá o sublime papel de tornar o ambiente mais festivo e abrir o apetite. Já para um jantar é necessário lembrar que o exagero é contrário da perfeição, por isso limitar o número de pratos e de espumantes.
Entrada: pratos frios como saladas (moderadamente temperadas) e carnes brancas são acompanhados perfeitamente com espumante nature ou brut, de preferência charmat, porque são mais frescos e ligeiros.
Primeiro prato: pratos à base de peixes, risotos ou massas são perfeitamente acompanhados por um espumante brut champenoise, mais maduro e complexo.
Prato principal: se for à base de carne vermelha o indicado é um brut rosé charmat ou champenoise, versátil e valente, onde a presença moderada de uvas tintas lhe outorga complexidade e amabilidade.
Sobremesa: neste final de jantar o recomendado é um espumante charmat moderadamente doce. Se for um Moscatel Espumante nacional, o teor de açúcares dificilmente é inferior a 80 g/litro e por isso é necessário que a sobremesa seja bem doce. Para sobremesas menos doces a recomendação é um demi-sec aromático com menor quantidade de açúcares.
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VPT - Recentemente, na Alemanha, alguns vinhos argentinos foram flagrados contendo fungicidas e antibióticos em sua composição. Qual o papel do conservante nos vinhos? Qual o limite para sua utilização?
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A legislação permite o uso moderado (em doses controladas rigorosamente pelo MARA) do conservante universal e sem o qual é impossível fazer vinhos potáveis, anidrido sulfuroso, e para os vinhos com açúcares o sorbato de potássio que tem como função evitar a proliferação de leveduras. O anidrido sulfuroso é usado em todos os vinhos do mundo e tem inúmeras funções que se iniciam já na elaboração. Quem trabalha com uvas sadias, em cantinas higiênicas e recipientes limpos não tem necessidade de exagerar. Os vinhos bem elaborados e bem conservados não precisam de conservantes, salvo o anidrido, porque ganham com o tempo e os cuidados a suficiente estabilidade para serem engarrafados e guardados durante longo tempo. O uso de conservantes proibidos deve ser denunciado e rigorosamente penalizado, porque trata-se de um delito. Evidentemente que no caso dos vinhos argentinos o uso de fungicidas e antibióticos pretende proteger vinhos elaborados sem os mínimos cuidados. O consumidor deve tomar cuidados com vinhos importados muito baratos. Lá como cá é impossível fazer milagres.
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VPT - Se você fosse presentear um amigo com um vinho brasileiro, capaz de representar nossa produção, qual seria esse vinho?
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Confesso que não bebo com a frequência que deveria os vinhos de meus colegas, mas fiquei surpreso com a qualidade do Merlot Terroir Miolo. Acho que é um excelente representante dos vinhos brasileiros.

17 fevereiro 2010

Dez perguntas para... João Valduga

Hoje tenho o prazer de publicar a segunda entrevista da seção "Dez perguntas para...", que começou em dezembro com Eduardo Angheben (relembre).
Para esta edição, convidamos o enólogo João Valduga, diretor e enólogo-chefe da prestigiada vinícola Casa Valduga, pela qual tenho especial carinho e admiração. Tal distinção se deve não somente aos seus vinhos tintos, brancos e espumantes, mas especialmente pela acolhida que dão a seus visitantes nas pousadas, varejo, cursos de degustação e restaurantes. Não é raro encontrarmos os irmãos João, Juarez e Erielson circulando pela vinícola e com eles termos longas conversas em torno do vinho e da história da família. Cada um em sua área, cada um cuidando para que a tradição permaneça, mas com olhos voltados para o futuro.
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VPT - A Casa Valduga começou com a produção de vinhos de mesa como quase todas as famílias de imigrantes da Serra Gaúcha. Quando começou a transição dos vinhos de mesa para os vinhos finos? Como se deu esse projeto?
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Em meados de 1970, com a formação enológica dos filhos e com ajuda do patriarca Luiz Valduga, exímio enxertador, introduziu-se variedades viníferas em especial a variedade Cabernet Franc. Em 2000 se deu toda a reconversão dos vinhedos no sistema latada para espaldeira simples.
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VPT - Vocês possuem o melhor complexo enoturístico dentre as vinícolas brasileiras e agora estão com um novo restaurante, o Maria V., em homenagem à sua mãe. Quais os planos da Casa Valduga nessa área?
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Nossa principal meta com toda a estrutura de enoturismo que temos, que compreende três restaurantes e seis pousadas, todos juntos à vinícola, é fazer com que o consumidor conheça e entenda o sistema de elaboração dos nossos vinhos, o carinho e a dedicação que temos desde o vinhedo e crie o hábito do consumo de vinhos. Para isto não mediremos esforços em continuar melhorando sempre a estrutura e como projetado há alguns anos atrás, a construção de um SPA.
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VPT - A linha Mundvs já teve lançamento do Malbec argentino e do Cabernet Sauvignon chileno, esse último com premiações importantes no ano passado. Qual o próximo lançamento internacional da Casa Valduga?
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Agora seguimos para a Europa, em Portugal. Elaboramos um vinho maravilhoso do Alentejo, que estará disponível no mercado em meados de junho.
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VPT - Na Serra do Sudeste vocês produzem a linha Identidade, com castas menos conhecidas do consumidor brasileiro. Tenho duas perguntas sobre esse fato: que diferenças existem entre o terroir de Encruzilhada e do Vale dos Vinhedos? Podemos esperar um novo Identidade para as próximas safras?.
O Vale dos Vinhedos já tem um terroir próprio, conquistando a primeira Indicação de Procedência e recentemente a Denominação de Origem, enquanto Encruzilhada do Sul também tem o seu terroir. Com amplitudes térmicas diferenciadas da Serra Gaúcha, como por exemplo dias quentes e noites amenas, facilidade no plantio, na mecanização dos vinhedos, usando-se avançadas tecnologias agrícolas. Após dois anos de estudos sobre solo e clima, a Casa Valduga acreditou ser este o local ideal, preservando o meio ambiente na implantação de novos vinhedos ecologicamente corretos e introdução de novas variedades, como Arinarnoa, Marselan e Ancelotta, que compõem a linha Identidade.
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VPT - Ainda há terroir brasileiro que a Casa Valduga pretende apostar? O Nordeste, por exemplo?
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A Casa Valduga é uma vinícola de tradição, buscando uma qualificação superior em seus produtos, dentro de um microclima favorável a isso. Apostamos unicamente em regiões frias, período este necessário para a hibernação da videira.
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VPT - Com a Domno vocês criaram uma concorrente?
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Estamos neste mercado há muitos anos e vimos a oportunidade de oferecer uma gama de espumantes para outros segmentos. Considerando que a Casa Valduga somente elabora seus espumantes no método tradicional da refermentação em garrafa, instalamos esta nova empresa, focada na elaboração de espumantes no método charmat, oferecendo ao mercado uma nova proposta, com espumantes mais jovens e frescos.
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VPT - O Gran Reserva Chardonnay tem feito muito sucesso. Os vinhos brancos brasileiros podem ser referência internacional como são hoje os espumantes?
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Com certeza podem chamar muita atenção do mundo, pois temos condições climáticas adequadas e no caso do Chardonnay Gran Reserva, este é uma mostra de como pode-se, com dedicação e cuidado dede o vinhedo, elaborar um grande vinho que hoje é considerado um dos ícones brasileiros.
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VPT - Uma vez você me disse que o Storia com concebido num daqueles dias em que tudo dá certo. O que aconteceu pra ele ser um vinho tão especial?
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Apostamos fielmente na natureza, no homem e na divindade. Temos absoluta certeza que nós, seres humanos, estamos integrados e fazendo a nossa parte, como por exemplo, desponta, desbrota e raleio de cachos, colhendo somente uvas sãs e maduras - maturação fenólica perfeita.
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VPT - Atualmente o Espumante 130 é elaborado com chardonnay e pinot noir. Mas ouvi dizer que outra tinta, a pinot meunier, fará parte do corte. Que características terá o novo 130?.
A Casa Valduga busca estar sempre atualizada, junto a órgãos de pesquisa como a CNPUV - Embraba Uva e Vinho. Novas variedades estão sendo testadas em nossas terras e a pinot meunier está entre elas, mas por enquanto o que já temos envasado para os próximos três anos ainda conta com as consagradas chardonnay e pinot noir.
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VPT - Apesar de estar entre as cinco maiores vinícolas brasileiras em volume de produção, a Casa Valduga ainda permanece familiar e com ares de "pequena vinícola" em termos de cuidado com os produtos. Qual o maior desafio que vocês enfrentam para manter essa característica?
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Estamos entre as cinco vinícolas mais expressivas do Brasil, o que nos honra muito. A Casa Valduga continua sendo uma vinícola estritamente familiar, colhendo uvs em 156 hectares próprios, pelo sistema espaldeira simples, sempre preservando o meio ambiente, buscando novos clientes, entre os quais hotéis, restaurantes, delicatessens. Nosso maior desafio é a concorrência desleal com vinhos importados de baixa qualidade e procedência duvidosa. Além disso, a alta tributação imposta pelo nosso governo.
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15 dezembro 2009

Dez perguntas para... Eduardo Angheben

Eduardo Angheben ao lado de seu pai, Idalêncio, em evento promovido pela Vinci Vinhos. Foto gentilmente cedida pelo site Enoeventos.

O blog Vinho para Todos inaugura hoje uma seção que se dedicará a entrevistar uma personalidade do mundo do vinho pelo menos a cada dois meses, publicando a entrevista no dia 15.

Para a primeira entrevsita escolhemos o enólogo Eduardo Angheben, que ao lado de seu pai Idalêncio, comanda uma das vinícolas brasileiras mais interessantes. Seus vinhos primam pelo pouco (ou nenhum) uso da madeira e são elaborados com uvas menos conhecidas do consumidor brasileiro, como teroldego e barbera. Produzem ainda os tintos touriga nacional, cabernet sauvignon e pinot noir, além de um gewürztraminer e um ótimo espumante brut, todos provenientes do terroir de Encruzilhada do Sul.

VPT - Eduardo, conte para nossos leitores um pouco dessa história de você e seu pai serem os "descobridores" do potencial vinícola de Encruzilhada do Sul.
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A história sobre a nossa "descoberta" de Encruzilhada começou com um professor meu do Curso Superior de Enologia. Ele se chama Eduardo Giovannini e morou lá em Encruzilhada do Sul na década de 80. Nessa cidade ele produzia mudas de plantas frutíferas e me contou que o clima de lá era interessante. Ele também já havia comentado isso com meu pai em meados de 1984/85.
Em 1996, cursando a cadeira de Viticultura eu tive que realizar um projeto de pesquisa buscando identificar as condições edafoclimáticas de uma possível nova região vitivinícola no Brasil. Decidi fazer essa pesquisa sobre o município de Encruzilhada e solicitei uma ajuda para meu pai que buscou livros sobre o Zoneamento Agroclimático do RS. Juntamente com dados que eu havia coletado, mais esses últimos, compilei tudo em um estudo que indicou que a região da Serra do Sudeste do Rio Grande do Sul era uma região bastante favorável ao cultivo da videira.
Mais tarde, já com intenção de começar nossa vinícola decidimos que iríamos procurar terras para tal e incluímos Encruzilhada entre os possíveis lugares a se implantar os vinhedos. Meu pai ainda trabalhava na Chandon e aprofundou e apresentou meu projeto para esta empresa. O projeto chamou atenção e a multinacional decidiu pela compra de terras em Encruzilhda. Passamos de 1999 a88 hectares. 2000 procurando áreas de terras para as duas empresas até que adquirimos a nossa propriedade de
Nela decidimos que iríamos plantar uvas consideradas tradicionais como a Merlot, Cabernet Sauvignon e Chardonnay, mas também faríamos um laboratório com uvas pouco conhecidas ou que nunca haviam sido cultivadas aqui no Brasil.
Desde 2000, portanto, estamos com os vinhedos implantados em Encruzilhada do Sul chegando atualmente a 25 hectares dos quais a maior parte é vendida para outras empresas.
A Angheben fica com uma parte pequena da produção comprando a preço de mercado já que os vinhedos constituem uma empresa separado. A Angheben foi responsável pela implantação e desenvolvimento do projeto técnico fornecendo todo o suporte técnico para os vinhedos, assim divulgamos a região e isso gerou o interesse de outras empresas que se instalaram posteriormente na região o que deu mais credibilidade ainda ao nosso projeto.
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VPT – A cantina da Angheben está instalada no Vale dos Vinhedos, distante cerca de 330 km de Encruzilhada do Sul. De que maneira isso interfere na produção?
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Na realidade a distância entre o Vale dos Vinhedos e Encruzilhada do Sul é de cerca de 250 km. Essa distância influência na questão de custo uma vez que encarece o frete. Todavia, na questão de qualidade temos um sistema de qualidade para a vindima que mantém a uva totalmente sadia e inteira desde a colheita até a chegada da uva na vinícola. Toda a uva é colocada em caixas e nelas é depositado no máximo 17 kg em cada caixa sem que nenhuma fruta seja esmagada pelo peso. As caixas são arejadas e tudo é feito no mesmo dia desde a colheita até o recebimento da uva. O transporte normalmente é feito à noite e processamos a uva na mesma noite. Caso tenhamos que transportar durante o dia isso é realizado com caminhões refrigerados. Portanto, conseguimos manter os níveis de qualidade para se elaborar ótimos vinhos.
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VPT – Por que a escolha por variedades menos populares para o consumidor brasileiro, como teroldego, barbera e touriga nacional?
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Primeiramente tudo foi pensado em termos de um "laboratório". Todavia, sabedores que o consumidor de vinhos finos é e está cada vez mais "curioso" e ávido por novidades e muito interessado em apreender sobre novos vinhos e novas possibilidades, resolvemos testar variedades diferentes. Algumas não deram um resultado satisfatório e após 3 ou 4 anos de produção, substituímos as plantas pelas que haviam dado ótimo resultado e tinha melhores perspectivas de mercado.
O caso da Teroldego, Barbera e Touriga foram as variedades diferentes que se destacaram positivamente em termos de vinho desde o início do projeto e por isso temos os vinhos no mercado há algum tempo. Mas foram destaques também a Chardonnay, a Pinot Noir e a Gewurztraminer.
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VPT – O cabernet sauvignon foge dessa proposta. Por que a escolha dessa uva e não da merlot, que é tida como a que mais se adaptou ao clima brasileiro?
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O caso da Cabernet Sauvignon teve dois aspectos. Um o aspecto técnico que foi testado como nas demais cultivares. Contudo, o aspecto mercadológico fez com que fosse umas das escolhidas para o "laboratório". Caso desse certo, como foi o caso, seria um vinho mais fácil de vender.
O caso da Merlot foi semelhante. Plantamos e ainda temos os vinhedos dessa uva. O resultado não é exatamente o que nós esperávamos. Confesso que gera um bom vinho, mas não o que eu esperava. O resultado da Merlot no Vale dos Vinhedos se mostra superior ao dessa mesma uva em Encruzilhada do Sul.
Gostaria de ressaltar que essa é uma opinião pessoal.
Creio que quando abordamos a questão de uma variedade para o Brasil devemos levar em conta que estamos falando de um país de dimensões continentais e portando, de muito microclimas diferenciados. Generalizar os aspectos climáticos afirmando que existe uma variedade para o Brasil é bastante delicado. A questão do Merlot é um bom exemplo para discutirmos isso. É notório o resultado positivo dessa uva para a região da Serra Gaúcha é mais notório ainda quando falamos de Vale dos Vinhedos. Isso não significa que a Merlot deva ser a uva escolhida para regiões da Campanha Gaúcha ou a Região do Vale do São Francisco, por exemplo, mas já uma realidade no Vale dos Vinhedos.
O mesmo pode ser analisado sobre o Espumante. Considero que para a Merlot e para o Espumante (tipo "champanha") as regiões da Serra Gaúcha em especial o Vale dos Vinhedos são as que geram os melhores resultados e que em breve farão a fama da Vitivinicultura do Brasil. Talvez a curto prazo esses dois tipos de produtos se tornem os "vinhos emblemáticos" do Brasil. Esses produtos provarão por si sós que o Brasil tem sim clima apropriado para vinhos finos, desde que se respeite a vocação de cada região. Se o Chile é bom para Carmenère e Cabernet Sauvignon, a Argentina é a terra do Malbec e o Uruguai do Tannat, o Brasil será respeitado pelos Espumantes e pelo Merlot do Vale dos Vinhedos.
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VPT – Vocês não utilizam madeira (ou utilizam pouca) em seus vinhos. É uma tentativa de fugir da “padronização” em voga nos vinhos sul-americanos?
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Nossa proposta é respeitar as características da região e da uva nela cultivada. Claro que ainda estamos buscando uma identidade, uma vez que temos plantas de apenas 9 anos. Estamos "construindo" podemos dizer assim, um novo "terroir" em Encruzilhada. Ainda temos muito para aprender sobre o comportamento das uvas lá cultivadas e temos que ter muito cuidado na utilização do carvalho para que não mascare as características típicas desses novos vinhos. Sem dúvida uma grande parte dos vinhos elaborados no Novo Mundo sofrem essa "padronização". Não sou contra essa forma de produção, o que não sou favorável é que se venda esse tipo de produto como se fosse esse o único "padrão". Quando falamos de vinhos não podemos ficar presos a padrões impostos. Há inúmeras diferenças nos vinhos de cada região e essa é a grande virtude, a verdadeira graça do mundo do vinho. Impor ao consumidor que está ainda aprendendo a provar vinhos um padrão e dizer a ele que este é o padrão de qualidade é uma irresponsabilidade ou no mínimo há interesses comerciais por trás disso. Esse "padrão" standartizado de vinhos com pouca acidez, muita madeira, e sabor que parece adocicado, não traduz o verdadeiro valor de experimentar um vinho que revela o sabor de uma determinada região. Devemos mostrar ao consumidor que o vinho é a expressão organoléptica de uma região, provar um vinho do Vale dos Vinhedos ou de uvas de Encruzilhada do Sul é sentir o sabor e os aromas dessas terras. O mesmo vale para um vinho do Pommerol, ou da Toscana. Provar um vinho que não apresenta características típicas de sua região, no qual não se sabe direito se seu sabor parece com um vinho do Chile, da Austrália ou da Califórnia tem o mesmo valor do que tomar um refrigerante.
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VPT – É possível produzir um pinot noir de destaque no Brasil? Que características ele terá?
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A uva Pinot Noir é bastante delicada de ser cultivada em qualquer parte do mundo. Na Serra Gaúcha ela vem obtendo sucesso para a elaboração de espumante. Para vinho tinto ainda é cedo para afirmar que produziremos vinhos de destaque. Mas com certeza é possível elaborar bons Pinots. Tanto na metade sul do RS quanto na Região dos Campos de Cima da Serra do RS estão sendo obtidos resultados interessantes. Em ambos os casos os vinhos resultantes são vinhos leves e delicados. Frutados, frescos e fáceis de beber embora com diferenças em função de cada região. Contudo ainda é cedo para se afirmar que já existe um Pinot típico e único no Brasil. Porém, nada impede que isso aconteça.
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VPT – Por que não produziram vinho em 2009?
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A Angheben vem produzindo quantidades muito pequenas. Temos um capital limitado para investimentos e desde nossa fundação elaboramos vinhos independente da qualidade de cada safra. Todavia, só engarrafamos os vinhos que apresentem um nível de qualidade que julgamos satisfatório. Assim, em algumas safras vendemos os vinhos que até eram bons, mas não o suficiente para ser um Angheben. A diferença agora é que uma vez que a qualidade da uva não for excelente não será mais elaborado vinho. Elaborar o vinho e ter que vendê-lo a granel não vale a pena no nosso caso. Em 2009 foi parecido.
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VPT – Vocês optaram por não distribuir seus vinhos diretamente, mas através da Vinci Vinhos. Por que?
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Existe uma grande dificuldade de logística no Brasil. O país é bastante grande e os custos de frete muitas vezes inviabilizam a comercialização direta pela vinícola principalmente em se tratando de venda a restaurantes. É sabido que hoje em dia poucos restaurantes mantém um estoque grande de vinhos. O normal é manter o mínimo possível e ai as compras são bastante fracionadas. Assim o frete acaba onerando o preço do vinho. A saída é a busca por um distribuidor que atenda e distribua o vinho localmente. Esse é o caminho mais viável embora as margens sejam menores para o produtor.
No caso da Vinci ela não é simplesmente uma distribuidora. Por trás da Vinci existe uma equipe muito competente, liderada pelo Ciro Lilla que dispensa apresentações. Tendo o aval do Dr. Ciro a Vinci entendeu nossa proposta e filosofia de trabalho. Tanto a Vinci quanto a Angheben não estão querendo defender o vinho brasileiro simplesmente. Nós estamos "levantando a bandeira" dos vinhos de qualidade e a Vinci encontrou na Angheben essa qualidade independentemente da origem. Ou seja, sem preconceitos contra o "vinho nacional" a Vinci reconheceu o trabalho da Angheben e além de disponibilizar nossos vinhos no mercado vem com muita competência mostrando e divulgando o trabalho, o pioneirismo e a qualidade de uma pequena Vinícola do Brasil.
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VPT – Se você fosse escolher pra beber em casa um vinho tinto, um vinho branco e um espumante brasileiros (que não sejam Angheben, claro), quais escolheria?
Certamente escolheria um Merlot do Vale dos Vinhedos. Gosto muito do Merlot V.E. produzido pelo Spa do Vinho aqui do Vale dos Vinhedos. Há bons tintos feitos da uva Tannat aqui no Vale também. E ainda estão surgindo belos tintos da Serra do Sudeste do RS e na região da Campanha.Já para os Espumantes, pode-se dizer que há vários de ótima qualidade aqui na Serra Gaúcha, seria injustiça eleger um só, mas o Chandon Excellence bem como os espumantes da marca Estrelas do Brasil são muito bons. Nos vinhos brancos considero que ainda estamos devendo ao consumidor... talvez eu iria procurar algum Riesling Itálico, mas esse vou ficar devendo a indicação.
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VPT – Que novidades podemos esperar da Angheben para as próximas safras?
Estamos repensando algumas coisas aqui na Angheben. Certamente virão novidades, provavelmente um novo espumante, esse mais leve e frutado e nos tintos pensamos em vinhos de cortes para serem vinhos tops. E há ainda outras novidades mais para frente, mas essas vamos falar numa próxima vez, combinado?